Sexta-feira, 25 de Março de 2011

É guerra!

No pacífico Brasil acontecem mais homicídios do que em qualquer guerra da História!

 

A violência no Brasil atingiu níveis maiores do que em qualquer luta armada da história da humanidade

 

Durante muitos anos eu tinha o hábito de tirar férias na Ilha Grande, em Angra dos Reis, RJ. Em uma dessas viagens conheci um grupo de médicos e enfermeiras holandeses que estavam aproveitando os dias de sol, enquanto faziam um curso de especialização no Rio de Janeiro. Como um jornalista nunca deixa de ser jornalista 24 horas por dia, 365 dias por ano, nós não conversamos como pessoas normais, nós as entrevistamos!

 

Nessa entrevista descobri que estávamos em guerra e nunca fomos avisados. Aqueles médicos e paramédicos vieram ao Brasil para aprender como tratar vítimas de armas de fogo. Os baleados! Segundo eles, com a queda desse tipo de “acidente” na maioria dos países europeus, sobretudo no norte, os profissionais de medicina estavam sem prática para atender os (raros) casos que apareciam.

 

Segundo os holandeses, desde o fim da guerra fria e do terrorismo o número de vítimas de armas de fogo tinha caído tanto que os profissionais perderam a prática no tratamento. Além disso, as armas e munições estavam diferentes do que eram na II Guerra Mundial, em 1945.

 

Para adquirir experiência estes estudantes e residentes europeus tinham a opção de estagiar em países que estivessem em guerra. Só que havia o risco de os médicos serem alvejados, seqüestrados ou até – como acontecia com assustadora freqüência – pisarem numa mina terrestre. A outra opção era estagiar em países com alto índice de violência e aí chegaram ao Brasil, mais especificamente no eixo Rio-São Paulo.

 

Foi aí que começou a parte triste da entrevista. Estes holandeses e holandesas, tão brancos quanto seus aventais, revelaram que a grande vantagem de estagiar no Brasil era a segurança (?) de ser um país em paz (??) e ter um número muito maior de vítimas do que nos países em guerra (???). Também tinha o aspecto da diversidade de armamentos e até uma especialização grátis em ferimentos por armas brancas (faca, estilete, machado, enxada etc), além de garrafadas e outros instrumentos perfuro contundentes.

 

Segundo um dos médicos, no primeiro dia de plantão no hospital municipal de Heliópolis, em São Paulo, ele viu mais baleados do que em toda carreira dele! Passado o susto, ainda foram estagiar no hospital Miguel Couto, no Rio de Janeiro. Aí sim, foram surpreendidos novamente!

 

Só para ilustrar, dados da violência no Brasil mostram que em 2010 tivemos uma média de 137 homicídios por dia! O que é praticamente 10 vezes mais do que um dia de conflito armado na Líbia, que é nossa mais recente guerra civil. A mesma estatística revela que o Brasil é o sexto país mais violento do mundo em números relativos (por 1.000 habitantes), com média de 46 e 50 mil homicídios por ano, mas é PRIMEIRO em número total! Finalmente o Brasil está em primeiro lugar em alguma coisa!

 

Em outras palavras: estamos em guerra!

 

Cruzes

O mundo tem 208 países (pela última convenção de 2008) e o Brasil ocupa o primeiro lugar em números absolutos de homicídios, sendo o sexto na medição por 1.000 habitantes. Sim, eu sei que já escrevi isso, mas precisa ser reforçado porque vem mais.

 

Se contabilizarmos as mortes de vítimas de trânsito, estatística na qual o Brasil é o quinto do mundo, com média de 35.000 vítimas fatais por ano temos algo em torno de 85.000 mortes causadas de forma violenta por ano no Brasil. Este número representa a população de muitas grandes cidades do mundo. Imagine se colocássemos uma cruz branca no chão onde cada uma dessas vítimas tombaram. Faltaria chão pra tanta cruz.

 

Como esta é uma coluna sobre motos, agora estou chegando finalmente no mote desta conversa: os motociclistas são duplamente alvejados, porque ou morrem vítimas de acidente no trânsito, ou morrem baleados na hora do assalto.

 

Recentemente vimos dois assassinatos de motociclistas em tentativa de assalto. No Rio de Janeiro, Paulo Viola foi assassinado com seis tiros em uma tentativa de roubarem sua Yamaha XT 660. Você não ficou sabendo dessa notícia, porque a mídia divulgou como “mãe do jogador Roger, do Cruzeiro, foi baleada no braço”. A morte do motociclista – namorado da mãe do jogador – foi uma notícia de menor importância.

 

Já em São Paulo, um jovem estudante de direito Leandro Bruno Longo, 26 anos, foi assassinado e teve sua Honda CBX 250 Twister levada pelos criminosos que primeiro mataram o motociclista para depois, sem a menor dificuldade, retirarem o corpo de lado, facilitando a fuga. Tudo filmado por câmeras de segurança.

 

Amigo(a) leitor(a), estamos sendo dizimados. Se você ainda não se deu conta disso, comece a sintonizar a TV em canais de programa policiais ou simplesmente sintonize seu rádio em uma estação AM de notícias. Não passa um santo dia neste país sem que a mídia divulgue um assassinato, seja passional ou latrocínio.

 

Confesso que cada dia eu tenho mais medo de sair de casa, até pra ir à padaria, afinal já fui assaltado a mão armada na rua de casa! Estou com uma moto esportiva de 1.000cc na garagem, um sonho de consumo alimentado há décadas, mas não tenho coragem de por as rodas na rua.

 

Os ladrões estão cada vez menos pacientes (eles já foram mais “profissionais”), sobretudo com os rastreadores e sensores de presença. Para evitar surpresas é melhor primeiro atirar, matar bem matado, depois revistar o defunto em busca de um sensor e então subir na moto e ir embora. A moto terá alguns arranhões, mas vai render uma graninha extra pra comprar mais bagulho, uma arma nova, equipar a moto de fuga, enfim, investir nos negócios.

 

Há alguns anos escrevi um artigo no qual dizia que queria mudar de ramo: entrar para esse comércio de produtos bolivianos em pó e até fiz as contas de quanto de investimento seria necessário para começar e quanto de lucro poderia render. Sem falar nas vantagens de não pagar impostos, ter a liberdade de matar os clientes inadimplentes (quantas vezes você não quis fazer isso?), atuar em várias frentes e se livrar da fiscalização simplesmente pagando algumas contribuições voluntárias aos agentes fiscalizadores.

 

A desvantagem é ser morto pela concorrência, mas no mundo corporativo é assim mesmo: os concorrentes querem se matar.

 

Nem vou perder tempo comentando teorias fajutas assistencialistas que justificam o aumento da criminalidade, porque isso eu deixo aos assistentes sociais de gabinete. Mas estamos sendo caçados, dizimados bem debaixo dos narizes das autoridades e os inimigos desta guerra civil nem se preocupam porque sabem que nunca ficarão presos. Nesta guerra declarada ainda tem um aspecto cruel, invisível só aos olhos das autoridades: só um dos lados está (bem) armado!

 

A notícia de um motociclista assassinado dura na mídia só tempo de outro assassinato mais espetacular. Um intervalo cada vez menor. A sociedade está ficando anestesiada com tanta notícia de latrocínios que passa por um corpo cravado de balas como se fosse mais um cachorro atropelado na Fernão Dias.

 

Mesmo assim, o seguro obrigatório dos motociclistas aumentou 300% em poucos anos, mas a proteção a esta categoria não cresceu nem meio por cento.

 

Caro(a) leitor(a): nossa espécie está sendo dizimada! E não há ONG que nos defenda...

 

publicado por motite às 19:34
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Segunda-feira, 14 de Março de 2011

Diário de um ex-magro

Última etapa do camp. Bras. de Motovelocidade em 1999. Eu (à direita) tinha 40 anos e 65 kg. Preciso ficar assim de novo... O do meio é o Leandro Panadés, outro filé de borboleta que hoje já está bem mais gordinho...

 

Como sobreviver comendo quase nada e correndo de moto.

 

Desde que Adão virou-se para Eva e perguntou “o que é este pneuzinho na sua cintura?” a humanidade descobriu o regime. E olhe que ela vivia à base de maçã! Tive de me submeter a um regime por três longos e intermináveis anos, de 1997 a 99, época em que decidi competir no campeonato brasileiro de motovelocidade, em uma Honda 125 especial que pesava 63 quilos. A moto, porque eu pesava 69 quilos, para 1,69 m de altura. Corpo de modelo, mas pesado demais para correr contra jovens de 55 quilos, que poderiam servir de manequins em qualquer agência funerária.

 

Fui parar em uma academia especializada em tirar banha de pilotos para emagrecer 8 quilos e ficar nas dimensões ideais de um piloto de moto nascido na Etiópia.

 

Com ajuda de uma nutricionista, comecei o tratamento. Entrava na academia às oito da manhã e saía às dez e meia, depois de fazer vários exercícios aeróbicos e com peso. Coisa de 100, 200 repetições, com pesinhos de 3 quilos. Duro mesmo era o regime.

 

Segundo a nutricionista, para alguém emagrecer é preciso comer. Sim, comer pouco e várias vezes por dia. A parte do “várias vezes por dia” até me agradava, quando lembro dos alimentos e das quantidades. Nada mais de ovo frito, pele crocante de frango assado, lasanha da minha mãe, almoço parenteral na casa da tia, bacon, torresmo e sacos gigantes de pipoca com Coca-Cola. Tudo isso pertencia ao passado. Minha dieta era à base de pepinos fatiados, broto de bardana (uma enigmática raiz descoberta por acaso por um tatu esfomeado e incluída na culinária humana), pães integrais com queijo branco, peixes grelhados com uma solitária alcaparra, mas sem manteiga. Complementado com aberrações como as tais barras energéticas, que proporcionam tanta energia para uma pessoa quanto uma pilha alcalina para um Boeing 747.

 

Fiquei tão especializado em regime que minhas amigas gordinhas vinham me consultar para saber o que estava tomando para ter um aspecto assim tão, digamos, moribundo. Virei consultor de mulheres em busca da anorexia, e poderia faturar uma grana com isso.

 

Foi uma fase difícil porque coincidiu com viagens ao exterior para testes de motos e pneus. Imaginem o que é passar em frente a restaurantes italianos sem mergulhar numa polpetta boiando em molho de tomate. Ou então fingir que não viu a placa “Hoy, paella valenciana”, num restaurante em Málaga, na Espanha. Ver joelhos de porcos crocantes na Alemanha, passando por baixo do meu nariz sem pular no garçon, dar uma gravata e roubar a bandeja. Nos Estados Unidos foi mais fácil porque a comida daquele país deveria fazer parte do acordo de paz da Onu, de não proliferação de armas químicas.

 

Enquanto eu desfilava diante de todas estas coisas, era obrigado a me refestelar com uma salada de agrião, quase sem tempero, ou um insosso peito de frango grelhado. A humanidade com certeza inventou o grelhado como forma de se vingar de algum deus mitológico, que exigia sacrifícios humanos. Imagino a cena: os pais tendo de entregar literalmente de bandeja a filha rechonchuda e tenra como um galeto al primo canto, mas sacaneando, “vamos grelhá-la, assim este deus nunca mais vai querer comer gente”.

 

A palavra regime até então se resumia a um estilo de fazer política: regime autoritário, regime militar, regime comunista, regime social-democrata-com-tendências-esotéricas, etc. Tive de conviver com esta ditadura e consegui emagracer não apenas os 8 quilos propostos, mas minha porcentagem de gordura no corpo chegou a miseráveis 11%. Todo mundo comia em restaurantes por quilo, eu comia em restaurantes por miligramas. Nos coquetéis, eu jogava fora o canapé e comia só a salsinha. Brindava com água mineral sem gás. Se servissem ossobucco no jantar, eu lambia o osso e ficava com um bucco no estômago.

 

Por isso não lamentei a perda do campeonato brasileiro em 1999. Sabia que poderia voltar para as picanhas fatiadas, frangos assados, pizzas, canelones, calzones, doce de leite, goiabada cascão, ambrosia, brigadeiro, caipirinha, etc. Agora, com imprensados 76 quilos dentro das calças, posso voltar à vida normal. E, se der vontade voltar a correr, sempre existirá a categoria F-Truck.

 

* Este texto foi escrito em 2002 e publicado no livro "O Mundo É Uma Roda". Hoje eu não corro mais de moto, mas inventei de escalar montanhas, o que exige uma relação peso x potência igual de moto: ou diminuo o peso ou aumento a potência. Aumentar a potência não está nos meus planos, odeio academias. Portanto sobrou reduzir a massa gorda, junto com a massa de pizza.

 

Ainda guardo as pastas com o regime proposto por uma nutricionista indiana faquir. Vou voltar à rotina de uma hora de bicicleta, meia de corrida a pé e apenas 3 exercícios com peso: ombro, braço e abdome. Preciso chegar (e passar) na páscoa com 68 a 70 kg. Ainda bem que tem o ovo de páscoa Alpino,que tem tudo a ver com alpinismo...

 

 

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Sexta-feira, 11 de Março de 2011

Desculpe, engano!

Recentemente tive uma bela e bem argumentada discussão on-line com um grande, respeitado e importante jornalista brasileiro. Ele citava um estudo realizado nos Estados Unidos para defender o uso de telefone celular por motoristas brasileiros. Sei que minha coluna é sobre motos, mas os motociclistas são envolvidos nesta questão delicada do uso de celular ao volante (ou guidão).

 

Desde que comecei a estudar o assunto segurança veicular, em 1983, condeno toda e qualquer conclusão baseada em estudos feitos fora do Brasil, especialmente nos Estados Unidos. As pessoas lá são diferentes, a educação é diferente, as punições são rigorosas, os carros são automáticos, as estradas são boas e bem sinalizadas e eles estão geográfica e socialmente em outro mundo. Ponto final. Poderia parar o texto aqui, mas como tenho de digitar mais uns 4.000 caracteres vamos aprofundar o tema.

 

O maior engano que se comete neste caso é confundir o falar com o operar um telefone celular. Claro que qualquer pessoa minimamente adestrada pode dirigir e falar ao mesmo tempo, senão os taxistas e as mulheres já estariam extintos. Não é o ato de falar – e naturalmente ouvir – que atrapalha o motorista mas toda operação que envolve o falar ao celular (estamos deixando de lado sistemas de viva-voz e auricular).

 

Vamos lá. Quando toca o telefone o motorista:

 

a)    Localiza o telefone

b)    Se for celular deslizante ou com flip precisa primeiro acessar o teclado

c)    Procurar uma tecla verdinha de 10 mm e apertar

d)    Falar, ouvir e dirigir com apenas uma mão

e)    Desligar o celular

f)     Guardá-lo em local seguro pra não sair voando pela janela

 

Agora deixa o celular de lado e pense na frenagem. Um carro pequeno, tipo Gol, a 60 km/h percorre em média 24 metros para parar. Este número é baseado em teste de frenagem feito com carro novo e dirigido por piloto experiente. Quando se fala em frenagem de motoristas normais, existe um dado muitas vezes esquecido chamado “tempo de reação”. Este tempo é composto de:

 

a)    Identificar o problema

b)    O cérebro mandar uma ação para os membros

c)    O pé sair do pedal do acelerador e pisar no do freio

d)    O curso do pedal do freio

e)    Retirar a folga das pastilhas/lonas até entrar em atrito

 

Esse tempo, em um motorista adestrado (note que não escrevi “experiente”), faixa etária de 25 a 35 anos, saudável e com carro em boas condições é de um segundo em média. Mas pode chegar até a 2,5 segundos se for acima de 50 anos, sedentário ou inábil.

 

Agora volte a olhar aquela operação de atender o telefone e tente imaginar que um cara muito hábil consiga fazer os itens a, b e c em um segundo! Então pense num telefone tocando na hora de frear! Serão dois segundos até o carro começar a frear. A 60 km/h o carro percorrerá 33.2 metros antes de o freio entrar em ação. É quase metade de um quarteirão.

 

O melhor motorista que conheço um dia apareceu com a frente do carro amassada e confessou: foi o celular. Mas explicou: ao atender, o telefone caiu da mão e ele abaixou pra pegar. Neste momento o carro da frente freou! Pumba! E se fosse um pedestre? Um motociclista?

 

Os dois tipos

Especialistas em trânsito defendem que existem dois tipos de motoristas: os que se envolvem em acidente e os que PROVOCAM acidente. Geralmente no segundo grupo estão muitos motoristas novatos ou inábeis, sem adestramento, que esquecem de sinalizar mudança de faixa, se distraem ao mudar a estação do rádio, diminuem a velocidade ou param de vez ao atender o celular. E quem está em volta é que se acidenta. E os motoristas causadores do acidente nem percebem o que aconteceu.

 

A cada vez que o motorista desvia o foco para qualquer operação, ele estará percorrendo uma enorme distância sem controle da situação. Pode ser 15, 20, 30 ou 40 metros por segundo, dependendo da velocidade. A maioria das pessoas se esquece que a equação espaço sobre tempo é insofismável. Só para complementar, durante o ofuscamento, o motorista pode levar dois segundos para recuperar a acuidade visual. Se estiver a 120 km/h serão 66,6 metros de vôo cego.

 

São estes dados que devem ser estudados ao defender um estudo ou análise sobre segurança veicular. E jamais aceitar um estudo que tenha sido feito fora das condições de piso, manutenção, educação e fiscalização brasileiros. Carros americanos são automáticos e dificilmente se vê um motorista por lá dirigindo sem alguma coisa na mão, desde celular até hambúrguer, refrigerante, secador de cabelo (eu já vi!!!) etc.

 

E posso encerrar afirmando que pessoas são diferentes. Eu me considero um ótimo motorista, mas sou o primeiro a admitir que não consigo dirigir falando ao celular. Aliás, até desligo o rádio em algumas situações que exigem atenção extra. Da mesma forma que tem gente que consegue digitar mensagem de texto, dirigir, mudar de estação, desviar de um cachorro e assobiar o Hino Nacional. Claro que as leis não são feitas para essas pessoas super dotadas, mas são pensadas em pessoas normais como eu e minha desligada irmã.

 

Também gostaria de pedir muita atenção a estudos sobre trânsito. Lembro de dois testes feitos no Brasil envolvendo consumo de bebida alcoólica. Um com motorista e outro com motociclista. Nos dois casos o resultado surpreendeu a todos porque após as duas primeiras doses de bebida destilada o desempenho dos motoristas melhorou!!! Desconfiados de que o problema era a repetição do roteiro, que permitia decorar as dificuldades, nos dois casos os roteiros foram alterados e mesmo assim o resultado foi o mesmo, ou seja, num primeiro momento o álcool deixava o motorista mais “ligado”. Quando os cobaias já estavam quase cambaleando aí sim, foi um desastre total.

 

Mas ninguém leu este resultado nos meios de comunicação por uma razão óbvia: ninguém de bom senso seria capaz de defender que o álcool melhora a pilotagem de carro/moto. Por isso só foi divulgada a parte ruim.

 

Talvez o estudo americano sobre celulares seja um caso parecido. Quem tiver curiosidade para ler o estudo completo está aqui.

 

Preciso lembrar todo mundo que os Estados Unidos é aquele país no qual não é obrigatório usar capacete, mas os óculos sim. Pela legislação americana se alguém quiser estourar os miolos na rua, tudo bem, ele é dono do próprio nariz e faz o que bem entende. Mas por que a obrigatoriedade dos óculos? Porque se entrar um cisco no olho do motociclista, ele fechar os olhos e atropelar alguém, aí sim, ele se torna uma grande ameaça à coletividade.

 

O que está em jogo no caso do celular não é o que pode acontecer com o motorista tagarela, mas o que ele pode PROVOCAR às outras pessoas! 

 

 

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Terça-feira, 8 de Março de 2011

Não sei porque você se foi

(Esta bela foto é de autoria do João Lisboa, obrigado velho amigo...)

 

Toda perda de alguém querido vem seguida da velha pergunta: Por quê? Por que ele; por que agora, por que não um ser indigesto ou assassino, por quê? Talvez se mudássemos o foco da dúvida encontraríamos as respostas. Em vez de por que, experimente perguntar para quê? Qual será a mensagem que a vida quis nos dar com aquela perda? Quais mudanças aquela perda poderá trazer para nossas vidas? A história já nos revelou que foi preciso o homem Jesus morrer para nascer o espírito de Cristo e criar um paradigma universal.

 

Quero refletir sobre a morte do amigo, fotógrafo, boa gente, motociclista João Lisboa. Ele se acidentou, dia 24 de fevereiro, durante um treino em Interlagos, os chamados track-days. Não sei exatamente as causas do acidente, só sei que bateu no muro externo da Subida do Café, ponto considerado como o mais perigoso da pista. Foi levado ao hospital de Clínicas pelo helicóptero Águia da Polícia Militar e teve três paradas cardíacas durante a cirurgia de contenção de uma hemorragia na artéria femoral. Na terceira parada o coração já enfraquecido por um histórico de acidentes vasculares não agüentou e parou.

 

Recebi a notícia logo após o acidente, sem saber a gravidade, mas já chegou com aquela aura de algo muito ruim estava para acontecer. Encontrei o velho amigo Miguel Panadés que lembrou várias passagens do João Lisboa. Era um tremendo boa gente.  Tinha motociclismo correndo pelas veias e curtia tudo relacionado a motos. A paixão exagerada pode até ter complicado sua vida profissional e pessoal porque várias vezes vi ele trabalhar de graça só pra estar envolvido com as motos.

 

Fumava mais do que turco, e adorava conversar... sobre motos! Segundo Miguel, o João dava tanto trabalho aos amigos quanto um filho. Ele lembrou que numa madrugada tocou o telefone. Do outro lado da linha o João gritou: “Miguel, vem me ajudar porque levei dois tiros...” Claro que o Miguel deu risada e um esporro porque não se brinca com essas coisas. Uma outra voz falou ao telefone: “Aqui é o tenente Fulano, o Sr. pode comparecer ao hospital porque seu amigo foi baleado”.

 

A penúltima do João foi abater uma Brasília a meia-nau, que lhe custou uma fratura de fêmur, alguns meses de gancho, outros de muleta e um eterno andar claudicante que o deixava ainda mais parecido com uma entidade! Baixinho, magro, de barba, gorro na cabeça, pitando e apoiado em uma bengala parecia um gnomo.

 

Sem grandes pretensões materiais era um sonhador. Queria fazer uma revista de moto, um jornal, um site, mas fez um blog. Precisava de um canal de comunicação para, como ele mesmo me disse uma vez, “falar tudo que tenho vontade”. E como falava aquele gnomo!

 

Menos de uma semana antes do acidente, João ligou para o amigo Laertes – da Moto Adventure – só pra jogar conversa fora. No velório, o Laertes revelou que o conteúdo da conversa girou sobre o tema vida, família, amigos e sonhos. Entre os sonhos estava disputar as 500 Milhas de Interlagos e era por isso que estava começando a treinar. E finalizou o papo com o Laertão com uma frase bem estilo João Lisboa: “se eu morresse hoje, morreria feliz!”.

 

Outro amigo inseparável, Leandro Panadés, lembrou a nossa velha e eterna justificativa em perdas como a do João. “Pensa que ele morreu fazendo uma coisa que gosta!”. Eu tento pensar assim, mas não consigo perder a vontade de dar uma bronca no João Lisboa quando encontrá-lo muitos anos à frente, espero! Bronca que eu não pude dar, mas só foi adiada, viu, gnomo?

 

Nenhuma perda é em vão.

Quando Ayrton Senna deu a pancada no muro, no dia 1º de maio de 1994 a Fórmula 1 mudou. Os carros mudaram, os circuitos mudaram, as pessoas mudaram. Não por acaso, Ayrton morreu em um circuito chamado de Imola. Immolare, em latim, significa “morrer por sacrifício”.

 

Talvez o João tenha morrido para que algumas coisas mudassem nas nossas vidas. No mesmo dia da morte dele (24/2) começaram as cornetadas na Internet. Gente criticando a pista de Interlagos, a empresa que organiza o track-day, a Federação Paulista de Motociclismo, as fábricas de moto, o Bispo etc. Recebi ligações de colegas da imprensa pedindo declarações, mas fiz questão de deixar claro que eu ainda não tinha dados suficientes para avaliar as causas do acidente.

 

Não foi para começar esta caça às bruxas que o João se foi. Temos de ser grandes nesta hora e refletir de forma lúcida e profissional, sem sensacionalismos nem oportunismos. Qualquer dono de moto esportiva de 180 cv quer acelerar. Sempre comparei motos às armas de fogo: ninguém compra uma pistola automática 9 mm, cromada, para deixar guardada na gaveta. Ele quer dar uns tiros. Até chegar um dia, movido por uma fúria incontrolável ou defesa, acaba disparando contra alguém. Não estava nos planos, mas ela foi comprada para isso.

 

A moto esportiva é comprada para ser usufruída. Ninguém pretende morrer com ela, não está nos planos, mas pode acontecer. Pena que ninguém pensa nisso. Correr em Interlagos é um sonho. Ninguém entra lá pra morrer, mas pode acontecer, assim como nos outros autódromos.

 

Muitos amigos cinqüentões começaram a falar em correr nas 500 Milhas porque viram vários tiozões de macacão correndo com filhos, sobrinhos e amigos. Mas correr de moto não é tão fácil. Exige preparo físico, técnica, frieza, respeito aos limites e um mundo de outras qualidades. Aqueles “tios” que estão lá não começaram agora. Um é o Vail Paschoalin, mais de 30 anos de experiência; outro é o Milton Nicola Adib, o Cigano, igualmente experiente; Sidão Scigliano, professor de uma geração; Pedro Mello, professor e veterano em pilotagem; Cerciari, uma dúzia de títulos brasileiros. De longe parecem apenas gordinhos (de perto também), mas sabem muito bem preservar a pele porque conhecem seus limites e da moto.

 

Não existe mágica em pilotagem de qualquer coisa motorizada. Começar depois dos 50 anos tem grandes chances de dar errado, mas quem admite isso? Sob a alegação de apenas se divertir os coroas estão lá em Interlagos até disputando um campeonato só para cinqüentões! Que sejam felizes, mas saibam que a calcificação óssea e toda recuperação física é bem mais difícil depois dos 50. Sem falar na recuperação do emprego!

 

Depois de passar boa parte da vida fotografando pilotos, o João quis realizar o sonho de ser um deles. Sonho totalmente compreensível porque é realmente uma atividade muito estimulante. Quando soube do acidente minha primeira vontade foi enfiar o dedo no nariz dele e dar uma bronca tipo “o que você foi fazer numa moto de corrida com essa idade???”.

 

Mas hoje, passada uma semana do acidente eu entendo o que fez o João subir na moto e encarar a tinhosa pista de Interlagos. Não posso julgar as pessoas pela minha experiência de vida porque comecei a correr aos 16 anos e só parei aos 40. Convivi com a adrenalina, largadas, cheiro de gasolina, alegrias e frustrações por 24 anos e confesso que hoje não tenho a menor vontade de passar por isso novamente.

 

Porém entendo o que leva os tiozões a entrarem nas competições. Foram anos de vontade reprimida e finalmente os filhos estão grandes, muitas vezes já está separado, emagreceu 15 kg, comprou uma 1000 de 200 cavalos e agora quer recuperar tudo que perdeu nos últimos 25 anos. Vai fundo, só não esquece que pode machucar e até matar.

 

É curioso como o tema “morte” é um tabu entre motociclistas, especialmente os donos de esportivas. Na minha nova atividade esportiva de escalada clássica o tema “morte” está presente em cada equipamento vendido nas lojas, desde um simples mosquetão, até em revistas e na publicidade. Todo material ou meio de comunicação específico de escalada vem acompanhado de um aviso: “a atividade de escalada pode provocar graves ferimentos e até a morte; antes de praticar procure instrução especializada e leia atentamente os manuais de uso”.

 

Alguém já leu algum aviso dessa natureza em capacetes, macacões, manetes, escapamento, carenagem etc? Para quem vai comprar uma moto esportiva para correr em Interlagos tudo é alegria e felicidade. Ninguém bate no ombro do sujeito e fala: “você sabe que isso pode te matar? Você teve instrução adequada? Você está apto fisicamente para exercer essa atividade?”

 

Nada disso. O cara vai lá, faz inscrição e corre.

 

Quando acontece um acidente fatal aí sim, parece que todo mundo resolve correr atrás de culpados. Não há quem culpar, mas nenhuma perda pode ser em vão. Por isso, gostaria que a morte do João pudesse sensibilizar todas as pessoas envolvidas com corridas, cursos de pilotagem, vendedores de equipamentos, preparadores, jornalistas, cartolas etc contribuíssem para que a segurança de pilotos e circuito sejam repensadas e melhoradas.

 

Não deixem que esta perda seja em vão. De todas as lições que podemos aprender com essa perda só uma é inaceitável e condenável: o oportunismo!

 

Recado ao Alexandre Barros

No dia do enterro do João, começou a habitual caça às bruxas em busca de um “culpado”. Isso é normal e, acredite, passageiro. Mas uma pessoa me surpreendeu com uma atitude totalmente aética. O ex-piloto Alexandre Barros usou o Twitter para aproveitar a morte do João Lisboa e divulgar a sua escola de pilotagem. O ex-piloto escreveu – mas depois voltou atrás e apagou – que no curso dele apenas 2% dos alunos sofreram acidentes e apenas cinco precisaram ser removidos por ambulância. Afirmou também que a BMW o apoiava por ser uma empresa ligada à segurança. Enfim, quis dizer que o curso dele é mais seguro.

 

Imediatamente entrei no Twitter e postei que aquilo era prova de mau-caratismo e que o ex-piloto ainda estava começando na atividade de professor. Logo em seguida os posts do Alexandre foram retirados, mas o estrago já estava feito.

 

Queria deixar um recado para o ex-piloto. Ter 33 anos de experiência em corrida não credencia ninguém a ser professor de pilotagem. Principalmente quando sabemos que nestes 33 anos não deve ter rodado nem 100 km em estradas, nas ruas congestionados de São Paulo, em estradas de outros países em cima de uma moto. Nunca vi este professor rodando de moto fora do autódromo, porque só usa carros para se locomover. Ser piloto de motovelocidade não basta se não souber como é uma curva a 120 km/h em uma estrada de asfalto velho, mão dupla, cheia de caminhões em volta. Ou desviar de um motorista distraído em plena avenida.

 

E não sei o que é pior em termos de imagem: uma escola na qual seus alunos caem, ou uma escola de pilotagem na qual o INSTRUTOR cai na frente de todo mundo. Antes de criticar as outras escolas e professores de pilotagem, Alexandre Barros deveria ver todo dia este filme que mostra ele mesmo caindo durante uma “exibição” a clientes.

 

Ter 33 anos de experiência, no caso deste ex-piloto, só mostrou que perdeu completamente o senso de ética profissional. Sugiro que a BMW chame seu patrocinado e aplique um “media trainning” para evitar comentários deste tipo. Se quiser ajuda, eu tenho 30 anos de experiência nesta área...

publicado por motite às 16:18
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