Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

Vida corrida - Acidente!

 

(Correr é uma arte, cair faz parte, heheh. Foto: www.cafefotos.com.br)

 

Sempre que percebo o brilho nos olhos de motociclistas que sonham em ser pilotos de motovelocidade eu jogo água na fervura e pergunto: “OK, mas você está preparado para sofrer um grave acidente?” De repente aquele brilho vai sumindo...
 
Mais do que broxar o candidato a piloto, esta advertência serve para lembrar a todos que a vida de piloto pode ser cheia de glamour, prazer, exposição na mídia, vitórias, ultrapassagens e até sedução. Sim, as mulheres adoram homens que se arriscam, é biológico! As mulheres vêem o homem que se expõe a riscos como excelente protetor e reprodutor (hummm). Só que a vida corrida também é cheia de hematomas, arranhões, ossos quebrados, fisioterapia, distensões ou coisas piores, resultado de prováveis e inevitáveis acidentes.
 
Entre os pilotos falar em acidente é um tabu. Ninguém gosta de lembrar dessa realidade que está ali à nossa espera em cada curva. Mas é bom enfrentar abertamente porque só existem dois tipos de piloto: o que já se acidentou e o que ainda vai se estabacar. Quanto mais perto do limite o piloto vive, maiores as chances de ver o asfalto bem perto do nariz. Como dizem os americanos “quem vive na beira do abismo uma hora escorrega”.
 
Por quê?
São basicamente quatro os fatores que levam a um acidente:
 
a)      Erro do piloto
b)      Erro de algum (ou alguns) outro(s) piloto(s)
c)      Problema no equipamento (quebra de alguma peça, erro na regulagem)
d)      Defeito na pista
 
Qualquer outro motivo é invenção da mente embaralhada de quem caiu e precisa urgentemente achar uma desculpa. O item “a” é o principal de todos, porque o fator humano sempre encabeçou a lista de qualquer tipo de acidente com motos, seja em corridas ou fora delas. Lembre-se sempre da diferença entre “atividade de risco” e “comportamento de risco”. Uma atividade de risco torna-se extremamente segura se os praticantes adotarem a segurança como filosofia de vida. E um simples atravessar de rua pode tornar-se um tremendo sufoco se o pedestre for um irresponsável, inconseqüente.
 
O segundo elemento na estatística é o item “b”. Às vezes quando um piloto erra acaba levando um inocente junto. Saber identificar os pilotos kamikazes e ficar longe deles é a melhor forma de sair fora dessa lista.
 
Em 22 anos como piloto nunca fui vítima de um acidente causado por quebra do equipamento (item “c”). E posso adiantar que, apesar de muito real, é uma possibilidade cada vez mais remota se a equipe tem o fator segurança como essencial. Eu mesmo fazia a checagem do equipamento antes de entrar na pista. Mas, como dizem os mesmos americanos “shit happens...”
 
Por fim, sim o item “d” é real. Já caí feio a mais de 180 km/h, em Interlagos, por causa de uma ondulação na pista. Está certo,a ondulação estava ali no mesmo lugar para todo mundo e já tinha decorado a localização. Mas para conseguir uma volta rápida era preciso passar entre a faixa branca e a zebra, um espaço de uns 15 cm. Um piloto mais lento atrapalhou a entrada dessa curva e acabei pegando a ondulação, que fez a frente pular e eu sair voando!  
 
Quando?
Curiosamente (na verdade, cientificamente explicado) os pilotos novatos são os que menos sofrem acidentes. Porque sabem que ainda estão aprendendo. Já os experientes têm a sensação de já saber de tudo e ficam mais expostos. Além disso, existe o fator medo que também já dediquei algumas linhas a respeito. Sempre que iniciamos uma nova atividade é natural a presença do medo que traduzo como um respeito ao desconhecido. Depois de assimilar a maioria das situações da nova atividade o medo, aos poucos, vai sendo substituído por um controle melhor as emoções e torna-se aquela margem de responsabilidade que existe dentro de cada cabeça.
 
A melhor forma de evitar acidentes é não se deixar levar pelo pânico. A pior coisa que pode acontecer a um piloto, seja lá qual for o veículo que pilote, é ser dominado pelo pânico. Vejo essa situação frequentemente durante meu curso de pilotagem. Depois de explicar várias vezes um exercício e repeti-lo até que o aluno consiga assimilar, basta deixá-lo praticar livremente e ao primeiro sinal de perda de controle o pânico toma conta e ele esquece tudo que aprendeu.
 
Imagine se o piloto de jato de caça, ao perceber que seu avião está caindo a uma razão de 8.000 pés/minuto, for tomado pelo pânico e esquecer de puxar a alavanca do assento ejetável? Ou então, apavorado pela possibilidade da queda, decide puxar a alavanca sem olhar para o horizonte artificial e acaba sendo ejetado do avião com a cabine voltada pro solo! Ele vai aumentar ainda mais a porrada contra o chão!
 
Uma das características de motos esportivas ou sport-touring é a ação do freio dianteiro. Quando o piloto entra na curva e aciona o freio dianteiro a reação da moto é ficar “em pé”. Durante o curso eu e os instrutores insistimos para que os alunos aprendam a usar o freio traseiro durante as curvas e repetimos vários exercícios. Mas basta o aluno entrar um pouco mais forte na curva e lá vai ele meter os dedos na manete do freio dianteiro! Aprender a controlar este pânico é a ÚNICA forma de evitar um acidente.
 
Onde?
Raramente se vê um acidente de moto nas retas. Normalmente o tombo acontece durante a preparação, contorno e saída de curva. Na preparação por um erro da avaliação na frenagem. O piloto pode ter freado muito tarde e forçou os freios com a moto muito inclinada. A moto pode ser freada até quase metade da curva, mas para garantir uma curva equilibrada, segura e com a saída mais forte é melhor frear um pouco antes, com a moto menos inclinada e acelerar mais cedo.
 
No contorno da curva, quando o piloto ignora as mensagens que os pneus mandam sobre o limite de inclinação. O limite de inclinação das motos é determinado pelos PNEUS. Um bom piloto é capaz de sentir quando os pneus atingiram o limite de aderência. Mas nem sempre o piloto é um bom intérprete destes sinais...
 
E na saída de curva, quando o piloto acelera antes da hora, com a moto ainda muito inclinada. É preciso colocar a moto em pé o mais rápido possível para começar a acelerar forte. Nem sempre o piloto respeita essa regra a acaba acelerando um tiquinho antes da hora. Destas três situações a pior de todas é na saída de curva, porque a moto arremessa o piloto longe (Jorge Lorenzo que o diga!), com maior probabilidade de lesões sérias.
 
Sofrer acidentes faz parte da atividade de pilotagem esportiva. Quem não gosta de saber disso precisa escolher outra atividade. Sofri poucos acidentes, mas cada um deles trouxe uma nova lição. Como já escrevi antes, a filosofia chinesa ensina que a sabedoria vem da experiência e a experiência vem dos erros que cometemos.
 
No mundo corporativo ninguém está imune a acidentes. A falência de uma empresa é conseqüência de um acidente de graves proporções! A perda da liderança do mercado, queda de produção, desfalques no caixa, propinas são exemplos de acidentes que os executivos estão expostos. Geralmente os motivos que levam a um acidente empresarial são os mesmos que os pilotos estão expostos: erro de avaliação, problema de equipamento (aqui poderia citar a falta de comunicação como o principal erro) ou defeito da pista, que poderia ser considerado a conjuntura econômica desfavorável.
 
Seja qual for a área de atuação, toda empresa precisa saber que os acidentes estão diretamente ligados ao comportamento de risco. Da mesma forma que pilotos usam equipamentos para se proteger das conseqüências dos acidentes, as empresas também podem contar com equipamentos para se blindar contra as lesões do mercado. A mais importante delas é a INFORMAÇÃO. Posso estar comentando a coisa mais óbvia do planeta, mas ainda vejo empresários que simplesmente ignoram novas formas de comunicação.
 
Recentemente vivi a experiência de lançar uma revista nova no mercado. Antes mesmo de o contrato estar firmado a principal revista concorrente ficou sabendo dos planos e imediatamente promoveu alterações no produto. Essa velocidade de informação é uma excelente forma de evitar um acidente no mercado. Na melhor das hipóteses, evita a ultrapassagem!
 
Por outro lado, passei uma temporada no principal título das publicações de moto e percebi, espantado, que as ferramentas de informação da Internet simplesmente NÃO eram usadas a favor da revista. O site estava abandonado e não havia interação com os leitores. Bastou contratar um especialista em web (indicado por mim!) que tanto o site quanto a comunidade do Orkut cresceram a uma velocidade exponencial.
 
É com a maior surpresa do mundo que percebo certa refração com relação às comunidades de Orkut. Não sei explicar os motivos que fazem do Orkut uma febre tipicamente brasileira, mas sei que, se bem usado, pode dar às empresas um panorama muito fiel da aceitação do produto. Creio que por ser diretamente associado aos adolescentes, muitos executivos não dão importância, mas deveria ser considerado como MAIS UMA forma de obter informação, nunca a ÚNICA.
 
Enquanto uma empresa gasta fortunas para desenvolver e produzir uma pesquisa de mercado (facilmente enganada pelos entrevistados), as comunidades do Orkut oferecem uma boa visão do público, funciona como geradora de tendências e como análise do perfil consumidor. Sem falar no aspecto viral das comunidades.
 
Nem mesmo a Internet ainda é eficientemente usada por alguns empresários que sofrem de miopia mercadológica. Ironicamente o mercado se apóia tanto na mídia de papel que não é capaz de ver o verdadeiro papel da mídia!

 

+++

 

(Blackbird or YellowBird? que dúvida!)

 

Decidi escolher uma moto quatro cilindros pra comprar. Na minha busca achei esta Honda CBR 1100 XX BlackBird amarela, mas não lembro de ter visto uma XX amarela, muito menos nessa versão XXX

 

(Oh que dúvida, qual comprar?)

 

publicado por motite às 18:16
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9 comentários:
De Morce a 29 de Setembro de 2008 às 18:42
Eita, gostei mais da XXX XD
E mais um belo topico ( ensinamento ) seu tite.
De motite a 29 de Setembro de 2008 às 18:54
Pois era um teste mesmo... foi o recorde de velocidade de comentário: menos de 10 min depois de postar já tinha um pervertido comentando, valeu Morce, au tb prefiro essa XX amarela!
De Morce a 29 de Setembro de 2008 às 19:05
Na realidade eu sempre leio seu blog. Faz tempo mas nunca tive o "impulso" necessario para fazer um comentario. Sempre lendo e comentando com um amigo que trabalho no computador ao lado. "Nossa o Tite escreve bem e hoje ele falou disso". Hoje quando mostrei a foto da moto pra ele ( este amigo ao lado, não é oculto ), mesmo não gostando muito de moto pude ouvir um "nossa..." daqueles que o som sai assoprado.

Grande Abraço vindo de Maringá/PR
De Rodrigo, o ex-vizinho mala a 29 de Setembro de 2008 às 19:42
Tite, por falar em ação do freio traseiro na aproximação das curvas...

Nessas horas, quem andava de bicicleta na infância tem maior propensão a usar o freio traseiro para fazer curvas de lado?

Ou isso também depende do c*** do piloto, o limite ao qual a pessoa consegue fazer a curva sem se borrar?
De Vitor a 30 de Setembro de 2008 às 01:04
Quando crescer quero uma dessa XXX pra mim... rsrs. Tite, sobre o assunto "comportamento de risco" um outro exemplo muito bom que podemos usar é no pára-quedismo. Sou praticante do esporte a 3 anos e o mesmo é cheio de regras, normas, procedimentos e mais um monte de coisa que visa sempre proteger o atleta, mas como em todo lugar, sempre tem as pessoas que acham que sabem tudo e acabam abusando, saltando sem proteção adequada, fazendo manobras arriscadas em lugares não indicados, enfim, irresposáveis mesmo. Depois sai a notícia (sensacionalista) dizendo que o cara saltou e o pára-quedas não abriu mas ninguém vai investigar se o atleta estava seguindo todas as normas, usando todos os equipamentos necessários, se tinha o treinamento necessário para a prática e mais um monte de coisa. Vejo que no mundo do motociclismo essa realidade é muito parecida. Um grande abraço e continua escrevendo pra gente ai.
De lucas /garoto a 30 de Setembro de 2008 às 04:03
muito interessante a informação de se usar o freio de trás na curva...

acho que a tendencia mais natural dos alunos em se usar o freio dianteiro é que umas das primeiras coisas que a gente aprende sobre curvas é que deve-se fazê-las com a ponta do pé pressionando a pedaleira, portanto tirar o pé da pedaleira para acionar o freiotraseiro é algo bastante "estranho", principalmente se a curva for para a direita...

e a última foto é demais hein!

grande abraço

e tite, acelerar na curva tem o mesmo efeito de frear (a saber, levantar a moto) ou isso é impressão minha? na prática me parece que sim, mas a "lógica" me diria que não, que o efeito de acelerar seria o contrário de frear...
De motite a 30 de Setembro de 2008 às 15:58
Lucas
Na aceleração a reação depende muito do tipo de moto, principalmente da suspensão traseira.

Mas esta sensação de a moto "levantar" quando acelera é normal e previsível.
De Paulo Ricardo a 30 de Setembro de 2008 às 04:13
imagina o consumo dessa blackbird XXX ??? isso tudo é só pra dar uma voltinha no Fim de semana... kkkkkkkkkkkkkkk
De L de Leonardo a 7 de Outubro de 2008 às 21:51
Sejamos francos e sinceros: pouqíssima coisa se aproveita do Orkut.

Acho que só no Brasil se dá uma importância absurda praquela brincadeira virtual. Certas estão as montadoras de não darem bola praquela coisa.

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