Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

Vida corrida - ultrapassagem e ultrapassado

 

(vai ser ultrapassado?)

 

É como um gol! Não dá pra explicar a sensação de uma ultrapassagem a quem nunca passou por isso. A única analogia que consigo é com futebol. A ultrapassagem é o gol das corridas. Quem está pilotando tem vontade de sair socando o ar a cada ultrapassagem bem sucedida. Fiz poucos (menos de uma dezena) de gols ao longo da minha horrível carreira de jogador de futebol, mas nas pistas meu placar foi bem elástico. A meu favor!
 
No kart eu fiz muito mais ultrapassagens do que fui ultrapassado. No motociclismo esse placar foi mais equilibrado porque minhas melhores ultrapassagens foram na largada, o que não dá a mesma sensação. Seria o gol de pênalti!
 
Quem almeja ser um piloto precisa entender como se processa a ultrapassagem do começo ao fim. É como um jogo de xadrez no qual o piloto precisa estudar cada lance do adversário. O primeiro estudo é o mais simples: descobrir onde é mais veloz que o adversário. Depois preparar o bote sem que o adversário perceba e só então vai pro ataque de forma a impedir qualquer reação.
 
Demorei algumas corridas para entender esse mecanismo porque existem várias formas de se evitar a ultrapassagem, desde as honestas até as mais cabotinas. Para evitar a “fechada de porta” o bote tem de ser mortal. Que nem uma serpente (das boas!).
 
Depois de algum tempo competindo na mesma categoria os pilotos passam a se conhecer a ponto de saber o comportamento de cada um diante da possibilidade de ser ultrapassado. Tem desde aqueles que nos surpreendem com uma força adquirida sabe-se lá de que anjo e começa a rodar mais rápido inexplicavelmente. Existem os desonestos assumidos que fecham no meio da reta ou simplesmente preferem provocar um acidente a se ver ultrapassado. Um tipo comum é o desesperado que assim que se vê na iminência de ser passado comete um erro atrás do outro e facilita as coisas.
 
Antes de uma corrida o piloto precisa avaliar se terá mais facilidade de ultrapassar ou ser ultrapassado. Para isso estuda os tempos dos seus adversários e a progressão deles ao longo dos dias de treino. Dos pilotos que estão mais próximos é preciso avaliar quais conseguiram melhorar seus tempos de volta de forma progressiva, quais ficaram estáveis e quais foram caindo durante os treinos. Os perigosos são os que progrediram de forma constante e consistente. O passo seguinte é pesquisar (um eufemismo para “espionar”) qual regulagens ele está usando: transmissão final, tipo de pneus, regulagens de barras estabilizadoras (se for coisa de quatro rodas) etc. O passo seguinte é avaliar os tipos de pilotos que estão à frente e atrás.
 
Depois de toda essa avaliação finalmente a equipe pode decidir por uma estratégia atacante, preparado para ir pra cima dos adversários que estão à frente, ou uma conservadora para se proteger dos que vêm de trás. Conforme esse estudo todo o piloto pode optar por um acerto que dê mais velocidade em reta ou mais força na saída de curva.
 
Ao contrário do que muita gente pensa, ultrapassagem começa com uma curva perfeita. O piloto precisa sair da curva com mais rotação do que o adversário, entrar na reta bem colado para aproveitar o vácuo e deixar para dar o bote na entrada da curva seguinte. Nem sempre o equipamento mais veloz é mais eficiente para ultrapassar, porque uma saída de curva veloz pode dar a força extra para passar mesmo que o adversário tenha um kart ou moto mais velozes.
 
Vácuo e pré-visão
O vácuo é a zona de baixa pressão aerodinâmica formada atrás de qualquer corpo em movimento. Até caminhando a pé nós formamos vácuo atrás de nós. Os ciclistas se aproveitam da troca de vácuo entre eles para economizar forças para o sprint final. O “tamanho” do vácuo depende de uma série de variáveis que vai desde a velocidade até o perfil aerodinâmico do veículo.
 
Karts produzem pouco vácuo porque são abertos e têm um perfil aerodinâmico conturbado, mas mesmo assim é possível se beneficiar dele. Já nas motos o vácuo é grande e ajuda – ou atrapalha – muito a vida dos pilotos.
 
Sem a pressão aerodinâmica pela frente o piloto consegue se manter na mesma velocidade do adversário à sua frente, porém com 500 ou 1.000 rpm a menos no motor. Quando o piloto percebe que o adversário à frente chegou na faixa de rotação máxima, ele precisa sair do vácuo e usar esses 500 ou 1.000 rpm a mais para passar. Simples!
 
Só que nem sempre é fácil assim, porque o adversário pode mudar a trajetória, sair da frente e fazer o vento pegar o outro bem de frente. E lá se foi a primeira tentativa... Ou então, o piloto da frente percebe a manobra e freia antes do previsto levando o outro piloto quase a um ataque cardíaco ao ver uma traseira crescer de repente na sua cara! Como eu comentei antes, é um jogo de xadrez.
 
Aí entra em cena a pré-visão. Que nada mais é que ver antes. O BOM piloto é aquele que conhece tão bem seus adversários que é capaz de antecipar as reações dele. Ao longo de 22 anos de corrida eu adquiri sensibilidade suficiente para conhecer meus adversários em poucas voltas e reconhecer o estilo de pilotagem de cada um. Sem estudar os adversários a chance de uma ultrapassagem acabar fora da pista é maior. Até mesmo para saber quem é mais desmiolado que outro.
 
A ultrapassagem bem feita é aquela que não dá margem para uma revanche. Muito piloto festeja uma ultrapassagem antes da hora e acaba sendo ultrapassado poucas curvas depois. Existe um aspecto psicológico pouco debatido nas competições que é a reação à ultrapassagem. É notório que a ultrapassagem é como vencer uma batalha, como submeter o adversário a uma humilhação, um nocaute. Neste momento podem-se observar desde pilotos resignados que aceitam a ultrapassagem como fato consumado, até os aguerridos que não se conformam e partem pra cima para retomar a posição a qualquer custo. Confesso que faço parte do segundo time, por isso sempre fui fã de carteirinha do Gilles Villeneuve (ex-piloto de F1) porque ele não deixava barato: devolveu a ultrapassagem várias vezes de forma selvagem!
 
Nesse aspecto é importante conhecer o perfil psicológico dos seus adversários, mas também o próprio temperamento. Já passei por situações nas quais um piloto me passava e eu esperava até ele se sentir tranqüilo, “vitorioso” para devolver a ultrapassagem a poucas voltas do fim para não dar tempo de reagir.
 
 
E no mundo corporativo?
 Impressionante o volume de ensinamento que as competições podem oferecer ao mundo corporativo. Nas várias empresas por onde passei vi desde equipes focadas no estudo dos adversários para proceder a uma ultrapassagem bem feita, até aquelas que se deixavam ultrapassar com uma facilidade desestimulante.
 
O que mais me impressionou no mundo corporativo, sobretudo no mercado editorial, foi a forma quase inocente de administração que facilitava ultrapassagens sem esboçar a menor reação.
 
Os erros mais comuns que vi nesse mercado foram a falta de investimento e desconhecimento do perfil dos adversários. Em uma época tão globalizada que vivemos vejo títulos importantes do mercado que se recusam a uma associação com revistas internacionais. As grandes editoras internacionais estão loucas para entrar no Brasil porque nosso mercado cresce numa razão exponencial. Basta analisar o número de alfabetizados nos países desenvolvidos e confrontar com nosso mercado latino americano.
 
Os mercados europeu e norte-americano têm um imenso público consumidor, afinal o índice de alfabetização é quase 100%. Isso é bom porque as revistas vendem muito bem, mas é ruim porque não tem mais perspectiva de crescimento. As populações dos países desenvolvidos estão encolhendo e a influência da mídia eletrônica também é maior. Aos poucos o número de leitores está caindo.
 
Enquanto isso no Brasil o número de alfabetizados aumenta lentamente e representa um promissor universo de futuro leitores. Sem ingenuidades, porque o senso de 2003 revelou 75% da nossa população formada por analfabetos funcionais!
 
As grandes editoras internacionais já começam a avaliar a entrada no mercado brasileiro de olho no crescimento de leitores. Títulos estrangeiros chegam e dominam o mercado pela qualidade e diversidade de pauta.
 
Mas as pequenas editoras que têm importantes títulos na área segmentada ficam só olhando, esperando o adversário chegar, passar por cima e ir embora. Há anos venho comentando que no dia que uma editora estrangeira lançar um título de motociclismo no Brasil as atuais revistas, sobretudo as mais conservadoras, serão ultrapassadas com facilidade.
 
Assim como nas competições, quem não evolui é ultrapassado. Em todos os sentidos!  

 

 

publicado por motite às 16:59
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