Sexta-feira, 9 de Novembro de 2012

A dor fantasma

 

Administrar as perdas com sabedoria

 

No período em que trabalhei em hospital tive a chance de conviver com pessoas que aprenderam a administrar as perdas. Médicos, para-médicos, enfermeiros, religiosos, estão sempre convivendo com as perdas. E o hospital tem muito desse equilíbrio porque divide espaço com maternidade e centros de tratamento intensivo. É o tempo todo gente chegando e gente partindo.

 

Neste período de 18 meses aprendi muito sobre a vida e a morte, como é natural neste ambiente. Mas uma lição ficou para toda a vida e acho um bom momento dividir esse aprendizado. Especialmente em época de redes sociais nas quais as pessoas dividem muito de suas angústias e alegrias e expõem suas feridas como se fossem prêmios.

 

No começo dos anos 80 eu trabalhava como fotógrafo em um grande hospital de São Paulo. Era um serviço fácil porque se resumia a produzir material para projeções em aulas. E eu aproveitava o imenso laboratório para revelar filmes,  ampliar cópias P&B para os meu amigos fotógrafos e exercitava meu ofício de fotojornalista.

 

Eu circulava pelo hospital com meu avental identificado por um grande CDF no peito, idéia de algum administrador muito bem humorado que achou divertido chamar meu departamento de Centro de Documentação Fotográfica só por causa do CDF. Uma tarde eu passava por um quarto e o paciente chorava copiosamente, sentindo fortes dores. Vi que era um jovem fui lá correndo tentar conter o cara até chegar um enfermeiro. Ele havia perdido uma perna em um acidente de trânsito duas semanas antes. Apontei pra perna que restou perguntando se a dor era ali. Pra minha surpresa ele berrou:


- Nãããaããooo, é NESTA perna!!! E apontou pro espaço onde só havia o coto!

 

Na minha ingenuidade ainda questionei, “mas aí não tem mais perna, deve ser a outra, ela está quebrada?”

- Nãããaããaãooo, a dor é no pé que foi amputado! E desandou a chorar mais ainda.

 

Achei melhor chamar um médico. E dei de cara com meu irmão, saindo do almoço. Ele era (e ainda é) médico e dava expediente no mesmo hospital, assim como minha irmã. Não, não era nepotismo, porque era uma empresa privada. Meu irmão teve uma carreira interessante na medicina. Se especializou em neurocirurgia, mas no começo enveredou pela chamada “medicina alternativa”, como homeopatia, acupuntura, xamanismo e outras menos ortodoxas. Hoje ele se especializou em UTIs.

 

Expliquei que tinha um paciente com muita dor na “não-perna” e que devia ser uma maluquice qualquer. Para minha surpresa, ele simplesmente respondeu “normal” e foi ver o jovem amputado. Fiquei na porta olhando, mas sem escutar nada. Meu irmão voltou com a caixinha de agulhas, ficou ali mais de uma hora e o cara acalmou. Fiquei imaginando como seria uma acupuntura no não-membro!

 

O luto

Quando alguém perde um membro é natural sentir dor na extensão dele. Os mais chegados à ciência dizem que é o reflexo das terminações nervosas que precisam cicatrizar. Os românticos chegam a comparar com a pior das dores de perda, como muito bem traduziu Chico Buarque de Holanda, na música “Pedaço de Mim”, quando compara a dor da perda a “uma fisgada no membro que já perdi”. Os mais espiritualizados explicam que é apenas a alma que continua cobrindo a extensão do corpo, até que se adapte à nova condição de não-membro.

 

Depois de algumas seções de acupuntura o paciente deixou de sentir a dor fantasma no membro amputado. Fui tirar satisfações com meu irmão, afinal como se espeta agulhas num membro que não existe?

 

A explicação foi uma lição. Segundo ele, na verdade, a acupuntura foi na perna que ficou. Estimulando a perna real por meio de agulhas, aos poucos o paciente foi se desligando da perna perdida. Segundo ele, “valorizando o membro que ficou foi mais rápido, natural e indolor aceitar a perda do membro que se foi”.

 

É isso! Este é o grande segredo! Muitas vezes as pessoas valorizam demais a perda e esquecem do que ficou, mesmo quando o que ficou são elas mesmas! É mais comum do que parece e reflete na depressão profunda gerada pelo o que foi perdido em detrimento do que ficou recuperado.

 

Vejo pessoas se desesperando e entregando-se a uma escuridão de sofrimento pelo que perdeu, deixando de valorizar o que ficou. Nas relações humanas isso é ainda mais fácil de perceber. A separação nunca será cicatrizada se o lado “deixado” não se der mais valor do que ao lado “separado”.

 

Sim, existe o luto pela perda e esta é uma das manifestações mais universais da Humanidade. O ritual do luto é seguido por civilizações desde sempre e obedecem padrões até coincidentes em culturas que nunca tiveram contato. Porque a dor da perda é universal.

 

A antroposofia e outras filosofias explicam o luto como a forma de interromper as ligações anímicas criadas com as pessoas de seu convívio. Segundo várias filosofias (não confundir com religião), a convivência faz com que as almas criem elos e, nos casos de parentesco ou casamento, chegam mesmo a se fundir.

 

A perda da pessoa ligada animicamente gera a ruptura desses elos a ponto de causar sofrimento até na alma. Daí a necessidade de respeitar o luto, que é o tempo que a alma precisa para entender a nova condição. Mas normalmente o conceito do luto está ligado só à morte física e não à morte do relacionamento. A sensação de vazio é o luto pelo relacionamento interrompido.

 

Por isso não consigo acreditar como sendo algo natural quando um casal (ou parte dele) “festeja” a separação. Talvez seja uma forma de disfarçar o luto constrangedor.

 

E a melhor forma de amenizar esse luto é voltar-se ao que ficou. É normal encontrar pessoas repetindo quase como um mantra “preciso esquecer aquele(a) desgraçado(a)”. Mas esse é um tiro no pé. Nosso cérebro é um HD pastoso e cinzento que precisa ser programado. Tentar esquecer alguém é a melhor forma de mantê-lo vivo no pensamento, porque para esquecer é preciso lembrar. O jeito menos dolorido de aceitar a perda é pensar mais em si e menos no outro.

 

Perda, não!

O conceito da perda por si só já traz uma conotação pesada e indesejável. Nossa formação ocidental católica-judaica-cristã usa a sensação da perda para nos carregar de culpa pela felicidade. Jesus morreu para nos poupar. A Bíblia está cheia de exemplos de perdas que trouxeram a redenção. O componente machista da religião contribuiu para que as perdas torturassem mais as mulheres desde a Eva, que desobedientemente comeu a maçã e perdeu a mordomia no paraíso. Quando os homens transam pela primeira vez ganham maturidade sexual. As meninas perdem a virgindade! O conceito da perda nos é imposto desde praticamente o nascimento.

 

Subliminarmente a sociedade ocidental nos força a acreditar que tudo é para sempre, o que enfatiza o desespero pelo fim. As histórias infantis terminam com o mesmo golpe do "e foram felizes para sempre". Depois a criança cresce, casa e a religião católica continua condenando aos relacionamentos eternos ao obrigar publicamente, com testemunhas, declarar que ficarão juntos até que a morte os separe. Prefira acreditar na versão Viniciusdemoraeseana do "que seja eterno enquanto dure".

 

E o melhor jeito de recusar este fardo essencialmente pessimista é acreditar na vulnerabilidade das pessoas e relacionamentos e reverter as perdas em ganhos. Valorizar menos o que se perdeu e supervalorizar o que ficou. Grandes histórias de vida começaram após uma perda.

 

Mas por que eu estou escrevendo tudo isso?

 

Bom, primeiro porque eu não quero passar minha vida escrevendo só sobre motos. E depois porque estou cansado de ver as pessoas mergulhadas nesta dor fantasma por algo que se perdeu a ponto de anularem a si mesmas. Respeite o luto, sim, mas valorize a vida!

 

publicado por motite às 19:04
link do post | comentar | favorito
8 comentários:
De douglas a 9 de Novembro de 2012 às 21:22
Caro Tite,
parabens continue assim
De Eu a 9 de Novembro de 2012 às 22:42
Belo texto, Tite!
De ca a 10 de Novembro de 2012 às 02:43
Sigo teu blog por conta das motos mas seu post q acabo de ler foi um " tapa na cara": um verdadeiro acorda! Muito obrigada, de coração. Ler suas palavras está me ajudando a ver q eu não perdi e q não preciso mais ficar no escuro. Obrigada.
De Laurí a 13 de Novembro de 2012 às 12:24
Excelente texto, como sempre. Sempre aprendo muito lendo seus textos. Grande abraço
De dagoberto a 17 de Novembro de 2012 às 13:24
Parabéns e obrigado pelas palavras
aplicáveis a qualquer situação em nossas vidas e não só em relacionamentos.
De Leonardo a 21 de Novembro de 2012 às 14:58
Excelente texto. Porque o blog não disponibiliza interface com redes sociais para que possamos compartilhar os textos?
De Mauricio a 1 de Dezembro de 2012 às 03:47
Texto espetacular TIte, concordo contigo que é maravilhoso sair do lugar comum e explorar outras áreas.

De Mateus Erthal a 13 de Dezembro de 2012 às 18:05
Ótimo texto Tite. Sobre a dor fantasma posso dizer que sei muito bem o que é isso por ter perdido uma perna. O que os médicos "especialistas em dor fantasma" me diziam é que para o cérebro aquele membro ainda estaria ali, então tomava remédios exclusivos para isso. Na verdade ainda hoje, 9 anos depois, de vez em quando sinto uma pontada ou até mesmo uma coceirinha na "não perna", que hoje é mecânica, coisa que é normal e não incomoda. Isso é relatado também por pessoas que tem um dedo amputado, mas que é um tanto difícil de acreditar por quem não tem "nada faltando". Abraço!

Comentar post

.mais sobre mim

.Procura aqui

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. Comprei um capacete!

. Indian Motorcycle comemor...

. É uma BMW! Teste da BMW G...

. Parque de diversões, um d...

. Salão da esperança

. Os dias eram assados. Com...

. 10 dicas (mais uma) para ...

. 10 dicas para comprar e u...

. Mamma mia! Como é a nova ...

. Clássica zero km, Royal E...

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Março 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds