Quinta-feira, 8 de Novembro de 2012

Será que vai ser sempre assim?

(manda uma pra cá, por favor!)

 

O que precisará mudar para que a vida em sociedade volte à harmonia?


Ontem presenciei cinco veículos que atravessaram o farol vermelho no espaço de poucas horas em locais diferentes de SP. Dois deles quase me atingiram. E todos eles simplesmente ignoraram a existência do semáforo, como se fosse uma rua sem qualquer tipo de sinalização. Isso foi em São Paulo, nos bairros do Jardins e Sumaré.


São Paulo precisa de uma grande e definitiva catástrofe natural. Um terremoto, vulcão em erupção em plena Avenida Paulista, uma enchente que provocasse um tsunami no rio Tietê e a população ficasse com cocô até os joelhos. Uma tempestade que varresse metade dos prédios da cidade, ou um ataque terrorista com uma bomba de nêutrons.


Só uma grande desgraça coletiva pode devolver à população de São Paulo o senso de coletividade que ficou perdido em algum lugar da involução humana. Não é possível que motoristas, pedestres, motociclistas e ciclistas continuem o resto de suas vidas achando que estão sozinhos e que os outros existem com o único propósito de atrapalhar suas vidas.


Já escrevo há mais de 30 anos sobre trânsito e não me canso de repetir: o trânsito é uma organização social e reflete o quão organizada é uma sociedade.


Isso não significa que São Paulo é uma cidade habitada por selvagens e sociopatas... quando estão em casa! Basta assumir o comando de um veículo para que o mais equilibrado dos cidadãos se torne um egocêntrico em potencial, com traços de esquizofrenia. Os veículos estão proporcionando às pessoas a clara impressão de que sob aquele comando manda quem dirige e obedece quem está fora.


Já quebrei a cabeça tentando desvendar de onde vem essa tendência ao egocentrismo. Já bati na tecla da importância da família no papel de desenvolvimento da psique dos futuros motoristas e atores do trânsito. E não vejo, nem num futuro mais fictício e distante a menor possibilidade de alguma coisa mudar no comportamento do paulistano.


De um lado as autoridades públicas abriram mão de disciplinar o trânsito e ensinar os atores (todos que dividem o espaço público). De outro lado a família, equivocadamente, entregou o papel da educação formal aos professores. E no meio disso tudo temos uma fome incessante de arrecadação por meio de multas. Por isso eu torço por uma grande tragédia.


Todo mundo sabe que a humanidade já passou por várias tragédias naturais ou provocadas pelo Homem. A tragédia traz um componente solidário muito interessante, porque as pessoas passam a dividir e não mais a competir. A própria raiz da palavra solidário remete ao latim que significa “dar de si”. Diante das tragédias as diferenças sociais desaparecem e a união se transforma na única solução de sobrevivência.


Sociedades que passaram por uma grande tragédia saíram diferentes, com uma cumplicidade social muito maior. O Japão é o maior exemplo de surgimento de uma nova mentalidade depois da segunda Guerra Mundial. Deixaram de lado a ideia de dominação pela força e o país se livrou do exército para desenvolver uma das maiores economias do mundo.


É isso que a cidade de São Paulo precisa. Um cataclismo de proporções bíblicas que possa romper com a atual tendência à individualização e dar início a uma nova forma de vida em sociedade que contemple o próximo como alguém tão importante quanto a si mesmo.


Não vai acontecer essa armageddon tabajara. Infelizmente. E vamos ser obrigados a viver como se cada um tivesse raiva do sujeito que está ao seu lado. O motociclista continuará a rodar como se a rua e os menores espaços fossem de propriedade dele e ameaçar com uma fúria insana qualquer um que se colocar no seu caminho. O motorista continuará protegido por películas escuras para colocar em prática todo seu egoísmo na luta por um centímetro de asfalto e desrespeitar toda e qualquer sinalização que atrapalhe seus planos. O ciclista continuará a pleitear o direito de pedalar onde e como quiser e ignorar as regras de trânsito, comportando-se como pedestre quando convém e como motociclista quando quiser.


Enquanto isso, os guardas multam, a prefeitura arrecada, as famílias perdem seus filhos, as seguradoras, bancos e as financeiras enriquecem, as fábricas faturam alto e a sociedade continua caminhando desenfreadamente rumo à insustentabilidade.


Um tsunami, por favor!   

 

publicado por motite às 19:46
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8 comentários:
De douglas a 8 de Novembro de 2012 às 20:17
creio que num primeiro momento seja assim mas depois (aqui) volta tudo ao que era
eu estou totalmente desiludido
De Luiz a 8 de Novembro de 2012 às 20:20
Sempre que possível dou pelo menos uma sapeada nos textos do Geraldo, mas às vezes me entristeço ao ver que ele tem razão no problema mas é otimista com a solução.

Não acredito que o povo brasileiro se una ou se conscientize nas catástrofes, porque não o faz nunca. Quanto pior a situação, mais o povo brasileiro demonstra um egoismo que chega à ignorância, quando grupos que poderiam se salvar junto falham na soluções individuais desesperadas ...

Espero estar errado, mas algumas pistas: os povos que se unem nas catástrofes são os povos que se respeitam no dia a dia também. Os japoneses NUNCA passam sinais vermelhos, não porque sofreram, mas porque respeitam o exemplo às crianças.

Espero mesmo estar errado, mas não pagaria pra ver. As eleições mostram isso claramente: As pessoas votam interessadas apenas em vantagens pessoais. Maior sinal de ignorancia não existe !
De Daniel a 8 de Novembro de 2012 às 21:01
Participo da sua indignação, mas não se iluda Tite: é antigo o mito de que o Brasil é assim porque nunca passou por uma guerra / desastre.

Se fosse assim, a África seria um paraíso.

O que acontece é que por ter um povo educado, consciente, alguns países que passaram por guerras e catástrofes tiveram a oportunidade de melhorarem ainda mais e mostrarem para o mundo do que são capazes.

No Japão, após o Tsunami, os supermercados baixaram os preços dos produtos e não houve saques. Pelo contrário, cada família comprava apenas o necessário para deixar o suficiente para o próximo.

No Brasil, haveriam saques, roubos, estupros, como foi na enchente de Santa Catarina.

Nós, como povo, falhamos.
De Rodrigo a 8 de Novembro de 2012 às 23:31
Hoje mesmo presenciei uma cena dessa má educação presente na cidade de S. Paulo: um motorista são paulino (estava c/camisa), nos seus 20 anos, foi virar à esquerda para aproveitar a passagem livre, ao fazer isso ele não viu um motociclista( talvez 40) que se aproximava ao longe, felizmente não houve a tragédia, mas o fato que sucedeu o evento é que despertou a curiosidade de quem estava por perto. Ele parou do lado do motorista e desceu o ''verbo'' no ouvido do jovem. Reação não acompanhada pelo jovem, o qual esperou o homem acabar e seguir o seu caminho. Grande exemplo do jovem, mas eu sinto que, pelo menos nessa região da cidade tem aumentado a quantidade de buzinadas e palavrões, pelo menos é só no trânsito.


Bom texto, gostei!
De Gerson a 9 de Novembro de 2012 às 01:58
Vem morar no Maranhão, Titânico!!!
De Alexandre Penna a 9 de Novembro de 2012 às 04:27
Oi Tite!
Pois é, eu estava pensando nisso uns dias atrás . Aqui em campinas esta pior que SP no quesito semáforo vermelho, mas acho que isso é mundial, porque li numa revista de moto americana um texto que reclamava do mesmo problema...
Acho que na verdade estamos perdidos como sociedade. O modelo atual de governo consegue usar o que há de pior em cada canto do mundo para aplicar aqui, e a bomba já esta prestes a estourar. Não sei o que ser vai acontecer, mas eu tenho quase certeza que infelizmente a catástrofe não será natural, mas terá milhares de baixas.
De pablo a 9 de Novembro de 2012 às 12:31
senhor volante!!!
De Rodrigo Pereira de Deus a 12 de Novembro de 2012 às 16:04
Falou TUDO! Eu estava nos EUA na época dos atentados de 11 de Setembro, e lá é um país é cheio de preconceito e individualismo, porém ficaram muito solidários uns com os outros principalmente em Nova York. O país inteiro se mobilizou pra ajudar. Gostaria de parabenizar os textos, mesmo não sendo de motos (essa paixão em comum rsrs) tem um conteúdo muito rico e deveria ser divulgado mais, esse mundo de hoje só fala em futebol, carnaval, mensalão que acaba em pizza, e esquece de outras coisas que nos prejudicam. Textos como este podem ajudar a mudar um pouquinho de cada vez, em cada um de nós. PARABÉNS !!!

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